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MBRF tem plano de R$ 500 milhões para ter a maior fábrica de colágeno do mundo

20/05/2026

A MBRF, dona de Sadia e Perdigão, iniciou uma nova fase de investimentos na Gelprime, sua aposta em colágeno e gelatina, com planos para mais que triplicar a capacidade da fábrica em Londrina, no norte do Paraná.

A meta é que, em cinco anos, a planta alcance 30 mil toneladas anuais. Segundo Rafael Braz, diretor de novos negócios da MBRF, isso fará dela a maior unidade do mundo a concentrar produção de colágeno e gelatina num único complexo industrial.

A ampliação faz parte de um plano de investimento de R$ 500 milhões da MBRF no colágeno, proteína que ganhou novo fôlego em meio à expansão dos análogos de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro. Ao mesmo tempo em que aceleram a perda de peso, eles exigem alimentos mais proteicos, para evitar a perda de massa muscular.

O movimento, na verdade, colocou gasolina numa fogueira que já vinha queimando há anos: a onda de trocar carboidrato por proteína para controlar o peso – uma tendência de consumo que toda a indústria de alimentos corre para suprir.

Do meio bilhão separado pela companhia, R$ 312,5 milhões já foram destinados à aquisição de 50% do capital da Gelprime, anunciada no fim de 2024 e concluída em novembro do ano passado. Os R$ 187,5 milhões restantes serão direcionados ao aumento das linhas de produção.

À época da aquisição de metade da Gelprime, a MBRF estimou que a empresa teria cerca de 5% da produção global de gelatina e colágeno após os investimentos em aumento de capacidade. 

Essa expansão vai atender três linhas de produtos, segundo Vinícius Vanzella, CEO da Gelprime: gelatina, tanto para a indústria alimentícia quanto a farmacêutica – onde serve para a fabricação de cápsulas; o colágeno funcional, usado em produtos como hambúrgueres e linguiças para melhorar textura e suculência; e o colágeno hidrolisado, ingrediente para suplementos, cosméticos e alimentos enriquecidos, como pratos prontos com alta concentração de proteína.

Inclusive o colágeno hidrolisado da Gelprime já entrou no produto mais recente do portfólio proteico da MBRF: uma linha de marmitas da Perdigão anunciada com cerca de 40 gramas de proteína por porção – mais ou menos 70% da necessidade diária de uma pessoa de 70 quilos.

Do couro à proteína

A Gelprime nasceu em 2019 como diversificação de um grupo do setor de couro, a Viva S/A, holding com receita de R$ 3,1 bilhões formada em 2023 pela fusão entre os curtumes Viposa, fundado em 1954 em Caçador (SC), e Vancouros, criado em 1990 na cidade de Rolândia (PR).

Vinícius, CEO da Gelprime, é parte da família que controla a Vancouros, dirigida por Edson Vanzella Pereira de Souza. Na época da fusão que criou a Viva, em 2023, Edson descreveu o movimento como uma forma de transformar o couro “não só em revestimento, mas também em proteína”.

Frigoríficos vendem peles bovinas, o chamado “couro verde”, a curtumes, que tradicionalmente as transformam em revestimentos para automóveis, móveis, calçados e vestuário. A margem aí é maior do que a da venda de carne in natura.

A produção de gelatina e colágeno também. Estimativas do setor apontam margens operacionais (Ebitda) próximas de 30% nos peptídeos, contra patamar de um dígito nos negócios tradicionais de proteína animal.

Em novembro, a Viva fechou outra combinação relevante: uniu seus ativos de couro aos da JBS, em uma joint venture batizada de JBS Viva, com 31 fábricas em seis países e capacidade de processar mais de 20 milhões de peças de couro por ano. 

O movimento coloca a JBS, controladora da Genu-in, como sócia 50/50 da Viva, que segue como dona dos outros 50% da Gelprime ao lado da MBRF.

A corrida do colágeno

Os investimentos da MBRF em colágeno se somam aos de outros concorrentes. A JBS, por meio da subsidiária Genu-in, inaugurou em 2022 uma fábrica em Presidente Epitácio, no interior de São Paulo, com capacidade de produzir 12 mil toneladas anuais entre peptídeos de colágeno e gelatina, resultado de um investimento de R$ 400 milhões.

A Marfrig, antes da fusão com a BRF, tentou comprar a catarinense Gelnex em 2022 e foi superada pela americana Darling Ingredients, que pagou US$ 1,2 bilhão. Hoje, a Gelnex opera sob a marca Rousselot, com 46 mil toneladas anuais em seis fábricas no Brasil, Paraguai e Estados Unidos. 

No ano passado, a Darling anunciou a fusão da Rousselot com a belga PB Leiner para formar a Nextida, joint venture com capacidade global de 200 mil toneladas e receita estimada em US$ 1,5 bilhão para este ano.

O mercado mundial de ingredientes de colágeno foi estimado em US$ 1,32 bilhão em 2024 pela consultoria Mordor Intelligence, com projeção de crescimento anual próximo a 6% até 2029.

Para Braz, mais do que entrar em uma nova proteína, o movimento permite à MBRF extrair valor adicional de cada boi abatido, em sintonia com a tendência global de aproveitamento máximo da cadeia.

O colágeno responde por cerca de um terço da proteína do corpo humano e está concentrado em tecidos como pele, tendões, cartilagens e ossos. A produção natural cai com a idade, o que abriu uma oportunidade para oferecer opções de suplementação.

A eficácia do consumo oral é tema de debate científico, já que o organismo quebra a proteína em aminoácidos durante a digestão e os redistribui conforme a demanda metabólica, não necessariamente para a pele ou as articulações. Mas a aposta comercial vai além desse debate. 

Para a indústria de alimentos, o colágeno hidrolisado tem uma vantagem que outras proteínas não oferecem: é neutro em sabor e aroma, solúvel e estável. Isso permite incluí-lo em produtos que, antes, não levavam injeções extras de proteína, como sucos, biscoitos, iogurtes e marmitas.

Texto: Rycardi Tooge (Invest News)