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"Brasiguaios corporativos", empresas brasileiras do agro aceleram planos de expansão no Paraguai

14/07/2026

Atraídas por um ambiente de negócios mais competitivo, incentivos fiscais, energia barata e proximidade com o mercado do Brasil, companhias de diferentes portes avaliam ou já colocam em prática planos de se instalar no país vizinho.

Se, no passado e ainda hoje, o interesse de "brasiguaios" em investir no Paraguai parecia concentrado apenas na compra de terras agrícolas por produtores rurais, agora empresas brasileiras de diferentes elos do agronegócio — e também de outros setores da economia — passaram a enxergar o país vizinho como um destino estratégico para expandir suas operações industriais e produtivas.

Impulsionadas por um ambiente de negócios mais competitivo, incentivos fiscais, energia barata e proximidade com o mercado brasileiro, companhias de diferentes portes avaliam ou já colocam em prática planos de expansão no Paraguai, reforçando o país como um dos principais polos de atração de investimentos na América do Sul.

O movimento reflete também o bom momento da economia paraguaia, que está aquecida no momento. No ano passado, o PIB local cresceu 6,6%, chegando a US$ 49,2 bilhões e a expectativa do Banco Central paraguaio é de que, neste ano, continue em ritmo acelerado, com alta de 4,4%.

O cenário positivo fica evidente na atração de capital estrangeiro: o investimento direto no Paraguai atingiu o recorde de US$ 1,18 bilhão em 2025, alta de 7,6% sobre os US$ 1,097 bilhão registrados em 2024, segundo a Cepal. Desse total, o Brasil respondeu por US$ 76,6 milhões, avanço de 4,8% na comparação anual.

Pequenas e grandes empresas brasileiras têm apostado no Paraguai. É o caso, por exemplo, da gigante JBS, que no ano passado decidiu retomar suas operações por lá após oito anos ausente do país vizinho ao Brasil.

A companhia dos Batista tem um plano de investimentos de US$ 70 milhões no país, que será executado em etapas ao longo de dois anos.

O primeiro passo foi a aquisição da Pollos Amanecer, marca local de frangos que opera em Yhú, conhecido como Campo 9, no departamento de Caaguazú.

Segundo Wesley Batista, acionista da JBS, a decisão foi motivada pelas vantagens competitivas oferecidas pelo país. “Encontramos condições de grãos supercompetitivas, mão de obra qualificada e disponibilidade de recursos”, afirmou.

A volta marca o retorno da empresa ao mercado paraguaio quase uma década após a venda de sua operação local para a Minerva Foods, em 2017.

O interesse pelo Paraguai, porém, não se restringe aos frigoríficos. Empresas de genética animal, tecnologia e outros segmentos do agronegócio também aceleram sua expansão no país.

Na área de tecnologia, por exemplo, a brasileira Agrotis escolheu o Paraguai como sua porta de entrada para a expansão internacional.

A empresa passou a oferecer no país seu software de gestão para o agronegócio, impulsionada justamente pelo movimento de clientes brasileiros que vêm abrindo operações do outro lado da fronteira.

"A gente está sendo levado pelo nosso mercado para lá, porque muitas empresas clientes nossas estão abrindo filial ou coligadas lá. E querem sistema", afirmou Manfred Leoni Schmid, sócio-fundador e CEO da companhia.

Também há multinacionais com forte presença no Brasil que resolveram apostar no mercado paraguaio.

É o caso da Topigs Norsvin, uma das maiores empresas de genética suína do mundo e líder desse mercado no Brasil, que inaugurou uma central de inseminação artificial para atender produtores paraguaios, ao custo de R$ 5 milhões.

A empresa atua no país desde 2017 por meio de parcerias locais, mas decidiu estabelecer uma estrutura própria para acompanhar o crescimento da suinocultura local.

"A decisão de estabelecer uma base operacional robusta no país vizinho acompanha o momento de profissionalização e crescimento da suinocultura por lá. O negócio tem crescido, mesmo ainda sem um número significativo de matrizes industriais. É um país promissor, uma continuidade do Paraná", disse ao AgFeed o diretor de negócios e marketing da Topigs Norsvin, Adauto Canedo.

Mesmo startups têm apostado em operar no país vizinho. É o caso da Reland, proptech brasileira criada em 2024, que agrega imóveis rurais à venda em sua plataforma on-line.

Ao longo deste ano, a Reland vem colocando de pé sua operação no Paraguai, de olho no interesse de investidores brasileiros na compra de terras agrícolas no país vizinho ao Brasil.

A empresa tem estabelecido parcerias com imobiliárias locais para ter forte presença no mercado paraguaio.

"No médio prazo, nós esperamos, sim, ser um grande player no mercado paraguaio", diz Valter Ziantoni, co-fundador da Reland. "Hoje já somos, de longe, a maior imobiliária que concretiza vendas para brasileiros no Paraguai, de terras paraguaias".

Por trás do interesse das empresas brasileiras, está uma combinação de fatores que tem tornado o Paraguai cada vez mais atrativo para investimentos.

O país reúne uma das menores cargas tributárias da região, energia elétrica entre as mais baratas da América do Sul, custos de produção competitivos e incentivos para empresas voltadas à exportação, além de ter uma situação política estável.

A estrutura tributária do país é baseada no chamado modelo 10-10-10, com 10% de cobrança de IVA, 10% de imposto de renda empresarial e 10% de imposto de renda pessoal.

Para empresas, há um importante benefício fiscal: a Lei da Maquila, vigente desde 1997 e que estabelece a isenção de impostos sobre a importação de matéria-prima e de maquinário para empresas estrangeiras que decidirem fabricar os produtos no País. É tributado apenas um imposto único de 1% sobre o valor agregado no processo produtivo. Pelo menos 318 empresas no Paraguai já aderiram à Lei da Maquila.

"Mesmo fora do regime especial de exportação da Lei da Maquila, a carga tributária dificilmente supera 30%, enquanto no Brasil o imposto de renda da pessoa jurídica pode chegar a 34%, sem considerar outros tributos sobre consumo", compara Daniel Meireles, da Acres Imobiliária.

“Há uma simplificação muito grande de todo o regime tributário, com leis que são de fácil compreensão e execução, completamente diferente do que a gente tem no Brasil”, avalia Soraya Tanure, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Nos quatro primeiros meses de 2026, as indústrias beneficiadas pela Lei da Maquila no Paraguai acumularam US$ 471 milhões em exportações. O Brasil foi o principal destino das remessas, respondendo por 65% do total, segundo dados do governo paraguaio.

O custo trabalhista também pesa na conta dos empresários interessados em investir no país. Embora a jornada semanal no Paraguai seja maior – 48 horas, ante 44 horas no Brasil – os trabalhadores paraguaios não têm acesso a encargos e benefícios previstos na legislação trabalhista brasileira, a CLT, como FGTS, seguro-desemprego e vale-transporte, o que reduz o custo total de contratação para as empresas.

“Enquanto no Brasil os encargos podem representar cerca de 80% do salário, no Paraguai esse percentual fica entre 35% e 40%”, estima o sócio-diretor da Acres Imobiliária, Daniel Meireles.

Soma-se a isso o preço da energia. O país não utiliza bandeiras tarifárias e atende cerca de 90% de sua demanda elétrica com a usina hidrelétrica de Itaipu, o que resulta, segundo Meireles, em tarifas entre 40% e 60% inferiores às brasileiras. “Energia mais barata e previsível beneficia principalmente indústrias intensivas e agroexportadoras”, diz.

Para a professora Soraya Tanure, a atratividade do Paraguai para as empresas da cadeia do agro varia de acordo com a demanda de cada segmento. “Produtores de grãos e pecuaristas vão ao Paraguai porque estão buscando terras que são mais baratas. Já empresas de sementes e fertilizantes têm, no Paraguai, um mercado que é muito ávido, que demanda muito, tanto por tecnologia quanto por manejo”, diz.

Para frigoríficos e para empresas de proteína animal, o Paraguai é extremamente atrativo pela baixa alíquota tributária, avalia Tanure.

Já para empresas de logística e agroindústrias, há ainda um gargalo importante. “Porque a infraestrutura do Paraguai não é das melhores, mas tem tido muito apoio do governo para investimentos pesados”, diz a professora da UFRGS.

Apesar de algumas dificuldades no presente, o futuro da infraestrutura paraguaia é visto com otimismo pelos entrevistados do AgFeed, principalmente pela implantação da Rota Bioceânica.

Trata-se de um conjunto de rodovias, com cerca de 2,4 mil quilômetros de extensão, que promete rasgar Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, ligando o Porto de Santos, no Brasil, aos terminais de Antofagasta, Mejillones e Iquique, no Chile.

Estima-se que o trecho paraguaio tenha entre 500 a 600 quilômetros de extensão. A ideia é que as costas do Oceano Pacífico e Atlântico e o interior de quatro países estejam interligados, facilitando o escoamento de commodities.

Na avaliação de Tulio Zanchet, fundador da distribuidora de insumos paraguaia Agrotec, parte do grupo Agrihold, a Rota Bioceânica traz uma nova oportunidade para empreendedores brasileiros empreenderem no Paraguai.

“Você pode trazer matéria-prima da China ou da Índia, ou de qualquer lugar do Oriente, via Chile, produzir no Paraguai, mandar para o Brasil ou Bolívia”, exemplifica Zanchet. “Ou pode trazer matérias-primas do Brasil e produzir no Paraguai também.”

Vantagens

Quem chega hoje ao Paraguai encontra um país muito diferente do passado, avalia Zanchet, um dos primeiros brasileiros a se aventurar no business paraguaio, ainda nos anos 1990.

Aos 27 anos, em 1989, ele mudou-se para o país para fundar a Agrotec, distribuidora de insumos agrícolas que, ao longo das últimas três décadas, se consolidou como uma das principais empresas desse setor no mercado paraguaio.

Hoje a Agrihold, que engloba a Agrotec e também a Alta Defensivos no Brasil, fatura US$ 500 milhões por ano. Em março passado, a companhia adquiriu uma participação na brasileira Agrivalle, tendo como um dos objetivos expandir a atuação da fabricante brasileira de insumos biológicos para o outro lado da fronteira.

Contudo, a realidade encontrada por Zanchet quando decidiu empreender no Paraguai era bastante diferente da prosperidade atual da Agrihold e do cenário de maior abertura e atração de investimentos observado nos últimos anos.

Os desafios estavam presentes desde questões estruturais e burocráticas até situações do cotidiano. A segurança era uma delas: logo na primeira semana no país, o executivo teve sua Saveiro furtada após estacioná-la na rua.

A infraestrutura também deixava a desejar, assim como a oferta de profissionais especializados. "Havia falta de mão de obra qualificada e também uma infraestrutura de logística extremamente precária. Poucas estradas eram asfaltadas", conta Zanchet.

Hoje, compara ele, o Paraguai está mais bem servido de mão-de-obra - ainda que os desafios para encontrar trabalhadores especializados persista - e tem uma infraestrutura logística mais consistente.

Para Renato Seraphim, fundador da startup Agroikemba e ex-diretor de grandes companhias do agro como Bayer, Syngenta e UPL, o Paraguai caminha para se consolidar como um hub de inovação na América do Sul, inclusive para multinacionais,

"Se você pegar a Syngenta ou a Bayer, o que elas estão fazendo? Estão lançando as inovações primeiro no Paraguai, aprendem o desenvolvimento de produtos com o mercado paraguaio e, depois, lançam no mercado brasileiro", diz Seraphim.

Seraphim lembra que um ponto que facilita a introdução de produtos no Paraguai é a relativa rapidez com que os insumos são liberados em comparação com o Brasil, ressalta o executivo.

"Se no Brasil você tem moléculas que demoram de sete a oito anos, no Paraguai esse tempo cai para um, dois anos”, diz Seraphim, que tem aproveitado a celeridade das liberações no Paraguai para acelerar os negócios da startup Agroikemba, que criou há um ano.

A empresa criou um marketplace para revender a produtores rurais insumos agrícolas prestes a sair de linha. Em geral, esses produtos são frequentemente distribuídos gratuitamente aos produtores por representantes e distribuidores, fazendo com que as indústrias percam dinheiro na equação.

Ao perceber as dificuldades da operação no Brasil, principalmente em razão da complexidade tributária, com impostos que variam entre os estados, Seraphim estabeleceu uma parceria com a Agrofuturo para comercializar no Paraguai os insumos prestes a sair de linha no mercado local.

"Eu estava batendo cabeça no Brasil e resolvi que iria para o Paraguai para dar agilidade à empresa", diz. A expectativa de Seraphim é de, em breve, estar faturando pelo menos US$ 3 milhões em apenas seis meses.

"Com poucas pessoas, nós estamos montando um business lá, porque tem agilidade, tem menos impostos e tem mais facilidade de fazer negócio", resume o executivo.

Pontos de atenção

Se ampliar os negócios para o Paraguai faz sentido para muitas empresas, migrar totalmente uma operação do Brasil para o Paraguai, porém, traz vários desafios que podem fazer com que o movimento não seja atraente, na avaliação do consultor Fabio Sgarbi, da StrategicAg.

Segundo ele, em post no LinkedIn, esse tipo de decisão passa por três questões centrais que devem ser analisadas: a possibilidade de certificação e registro do produto fora do Brasil; a viabilidade logística de transportar a produção sem comprometer sua qualidade ou valor; e se a economia de custos obtida é capaz de compensar a perda de escala, da infraestrutura e do ambiente regulatório já estabelecidos no mercado brasileiro.

"Sempre que a resposta é "não" em pelo menos um desses pontos, a migração deixa de ser atraente", avalia Sgarbi.

"A atratividade de produzir no Paraguai não se resume a uma carga tributária menor ou ao custo mais baixo da mão de obra. A análise precisa considerar se há algum ativo – como certificações, propriedade intelectual, infraestrutura especializada ou o próprio produto biológico – que perde valor ao atravessar a fronteira", diz.

Indústrias de diferentes desafios, segundo ele, podem ter dificuldades. No caso dos bioinsumos, as empresas precisam lidar com exigências regulatórias, como o registro de produtos e estabelecimentos no Ministério da Agricultura e Pecuária.

Há ainda desafios logísticos, já que muitos princípios ativos são organismos vivos, sensíveis ao tempo de transporte e à temperatura, o que pode comprometer sua eficácia.

“O que torna a migração completa pouco atrativa, mesmo que um modelo híbrido (fermentação no Paraguai, formulação e registro no Brasil) possa fazer sentido”, avalia.

Exemplo semelhante acontece com a pecuária, cita Sgarbi. Certificações sanitárias e de rastreabilidade para exportação estão vinculadas às propriedades rurais e ao país de origem, e não às empresas.

Assim, uma operação transferida do Brasil para o Paraguai passa a seguir as regras e os acordos comerciais paraguaios, incluindo cotas de exportação próprias, o que pode significar a troca de mercados em vez de uma simples redução de custos.

“Se um frigorífico brasileiro mover a criação para o Paraguai, ele não "leva" a certificação junto — o gado nascido e criado lá se torna, para efeitos sanitários e de origem, produto paraguaio, sujeito ao protocolo de exportação do próprio Paraguai”, diz Fabio Sgarbia.

“E mais: cotas como a Cota Hilton são negociadas por país, não por empresa. Não existe transferência de cota do Brasil para uma operação brasileira no Paraguai. Ou seja, mover a pecuária de exportação para lá não reduz custo mantendo o mercado”, emenda.

A produção de alimentos perecíveis de alto valor agregado e curta vida de prateleira como sucos naturais, frutas frescas e laticínios especiais também apresenta muitos riscos no Paraguai.

“A travessia da fronteira em contêiner refrigerado degrada sabor e aroma a ponto de inviabilizar a operação. Para esses produtos, a proximidade com o consumidor final vale mais que a economia tributária”, avalia.

Instalar uma empresa no Paraguai faz mais sentido, na avaliação de Renato Seraphim, quando o país é utilizado como plataforma para atender outros mercados da região, e não apenas a demanda local.

"O mercado do Paraguai é do tamanho do mercado do Paraná ou do Mato Grosso do Sul. Não faz sentido vender só para lá", ressalta.

Tulio Zanchet, fundador e CEO da Agrihold, faz uma ponderação semelhante. Segundo ele, empresas que pretendem atuar exclusivamente no mercado paraguaio precisam avaliar cuidadosamente a viabilidade do negócio, até pela quantidade de concorrentes regionais.

"Quem quiser focar apenas no mercado interno precisa fazer um profundo estudo e um bom plano de negócios", afirma.

Zanchet também desfaz uma percepção que, segundo ele, existe entre parte dos empresários brasileiros quando pensam em se instalar no Paraguai.

“Não dá para ir para lá pensando que é tipo um Velho Oeste, que é um país desorganizado. É exatamente o contrário. O governo respeita as empresas que trabalham de forma séria, o sistema bancário é super intercomunicado, o sistema de gestão de crédito é rigoroso e o ambiente exige profissionalismo”, resume. “Não é um país para aventureiros.”

Fonte: AGFeed