Entrevista do presidente da Abipecs Rui Eduardo Saldanha Vargas

 

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Entrevista do presidente da Abipecs, Rui Eduardo Saldanha Vargas

Rui Eduardo Saldanha Vargas, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs)...

Terça-feira, 7 de Janeiro de 2014 às 09h27

 
Entrevista do presidente da Abipecs, Rui Eduardo Saldanha Vargas

Após a análise do mercado brasileiro de bovinos e aves na edição anterior da CarneTec, reservamos a edição janeiro/fevereiro/março da revista à carne suína, e buscamos na Direção Executiva da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs) a fonte para as informações.

A entrevista exclusiva com o presidente da entidade, Rui Eduardo Saldanha Vargas, ocorreu em novembro, mas já era possível vislumbrar as perspectivas para o fim de ano e para 2014. Até o fechamento deste texto, ainda em 2013, foi possível atualizar algumas das informações com novos dados fornecidos pela Abipecs.

A associação projeta para este ano de 2014 vendas externas de 590 mil toneladas, crescimento de 15,7% em relação ao volume de 510 mil toneladas estimado para o ano passado.

Como o sr. analisa as exportações em 2013?

Nós tivemos um problema entre março e maio, quando houve interrupção das exportações para a Ucrânia, uma perda em torno de 12 mil toneladas/mês, que nos fará falta no final. Acredito que a gente consiga fechar o ano em 510 mil toneladas, contra 580 mil em 2012. Talvez em termos de valor supere, porque subiu bastante o valor no mercado internacional.

A que o sr. atribui essa subida em valor?

Porque estava muito baixo. Fechamos 2012 com preços muito defasados. Estávamos trabalhando bastante para ver se melhorávamos os preços de alguns mercados importantes, e neste ano conseguimos melhorar alguns preços, principalmente depois de julho, quando houve uma diminuição da oferta de nossos concorrentes, pois eles venderam bem para alguns mercados e depois não tinham mercadoria para entregar a outros, e a gente pôde melhorar o preço.

O nosso maior comprador continua sendo a Rússia?

Está alternando entre Rússia, Ucrânia e Hong Kong, os três com 21% a 23% cada de representatividade em nossas vendas.

Então, diminuiu a dependência do mercado russo.

Em 2005, a Rússia tinha 62% da nossa exportação, e hoje temos no máximo 23% com eles. Para nós, isso é muito importante. Talvez para os nossos associados não seja bom porque a Rússia é um ótimo mercado, exercita um preço muito bom, é um bom pagador, mas em termos de você ter uma solidez, uma tranquilidade, planejamento para o que vai ser exportado e o que fica no mercado interno, ficar muito dependente de um único mercado, como o russo, não é tão satisfatório, porque volta e meia eles aumentam e diminuem os preços, as compras, de um modo meio instável. Obviamente é um bom mercado, a gente não quer largar o mercado russo, mas é um mercado para nos mantermos com ele em um nível que não comprometa quando ele deixar de existir.

Quais são as negociações em curso?

Estamos trabalhando com a perspectiva de Japão, para o qual fomos habilitados em 2012 e neste ano fizemos algumas vendas, muito poucas ainda, e esperamos que para 2014 o Japão tenha uma representação bem adequada. E neste meio tempo pretendemos que a Coreia do Sul também aprove o estado de Santa Catarina. E também estamos trabalhando com o retorno da África do Sul, um mercado de 40 mil toneladas, que estamos tentando reabrir, pois desde 2005 não exportamos a eles por conta de um evento de febre aftosa em bovinos em Mato Grosso do Sul, mas agora parece que estamos na reta final e para 2014 acho que vamos conseguir retomar este mercado. Estamos trabalhando ainda um mercado muito pequeno, que é o Peru, um mercado de 5 mil toneladas/ano. Temos uma boa reação de Angola, que este ano aumentou bastante a sua importação em termos de volume, e o preço também melhorou, da mesma forma que os preços em Hong Kong melhoraram. Temos uma expectativa bastante grande desde 2011 com a China, que ela possa estabilizar essa compra de nossa carne. Sabemos que os chineses demoram bastante para começar a comprar, em um processo muito lento e gradativo, e esperamos que a China compareça com algo melhor do que em 2013. Enfim, estamos vislumbrando a possibilidade de um ano muito bom para o mercado externo, e obviamente um ano muito bom também para o interno, porque precisamos desse equilíbrio.

Há novos compradores no horizonte?

As negociações já citadas estão próximas de amadurecer e podem eclodir em 2014, melhorando números ou se posicionando dentro da nossa rede de compradores. Agora, quanto a novos mercados, sempre estamos trabalhando para abrir, como o Canadá, o México, a União Europeia, que tem alguns países que compram carne suína em níveis bastante bons, como Romênia e Bulgária. São acessos de mercado que estamos trabalhando tecnicamente para tentar chegar, e acredito que em 2014 pode até vir a acontecer – mas não estamos contando com isto –, o que seria uma grande notícia.

Em meio a tantas boas perspectivas, o sr. acha que em 2014 poderemos superar a marca de 600 mil toneladas exportadas?

Eu sempre acho que é possível. Sempre queremos melhorar a nossa exportação mais ou menos no mesmo nível e padrão da produção. Se crescermos em produção, queremos crescer em exportação para manter o equilíbrio do processo. E obviamente sempre procuramos aumentar também o nosso consumo interno, nem que seja algo pequeno, mas dentro da mesma proporção que crescemos na produção.

Como é feito esse equilíbrio entre produção e direcionamento das vendas?

No mercado interno temos cerca de 80% do consumo em produtos cárneos derivados. Cortes correspondem a 15%, 17%. O resto são miúdos. 85% do que vendemos no mercado interno é industrializado, e 15% a 16% são in natura.

Isso, tecnologicamente, demonstra que a carne suína é versátil, saborosa.

Demonstra que no corte in natura o nosso campo é limitado. Temos de crescer mesmo no produto de valor agregado, como a salsicha, mortadela, copa, salame, linguiça, todos produtos que aparecem a cada dia com novidades. Os carros-chefes no Brasil sempre são os cozidos (mortadela e salsicha), linguiças, de todas as características e formas, além do presunto.

E hambúrgueres, almôndegas?

Pode ser feito, sim, com carne suína, mas culturalmente ainda não conseguimos trabalhar com esses produtos. Uma coisa que temos trabalhado muito para promover a carne suína é com pratos de restaurante, e dizemos: “Você pode fazer um estrogonofe de lombo suíno se quiser, mas você nunca ouviu falar”. Temos tentado implantar essas ideias, inserir a carne suína em certos tipos de pratos tradicionais, feitos com carne bovina. Carne moída, por exemplo, só se sabe que existe de bovino. Com as aves, tentou-se o hambúrguer de frango, mas não deu certo, e o que vemos nas hamburguerias é o filé de peito dentro do sanduíche. Em alguns momentos essas hamburguerias largam alguma parte do suíno, com um baconzinho, mas isto não sai como rotina. Não se conseguiu muita coisa nessa área ainda, então esses são os desafios que temos, como o de mudar as culturas de alimentação e culinária do povo.

E 2014 seria um bom ano para isso, por conta da Copa do Mundo?

Vamos receber muita gente de fora e talvez tenhamos de experimentar alguns pratos. Por exemplo, os japoneses gostam muito de carne moída suína, vi muito nos supermercados de lá, porque eles fazem almôndega, bolinhos, e não é cultura nossa fazer isto, mesmo porque a nossa cultura é muito baseada na culinária italiana, portuguesa, espanhola. Talvez 2014 seja um ano bom para apresentarmos algumas sugestões. Por exemplo, a cultura do Leste Europeu gosta muito do que chamamos aqui de ensopadinho, uma carne assada num molho; lá no Rio Grande se chama guisado cortado a faca, e no Leste Europeu eu vi que eles cortam uns cubos bem grandes de carne, incluindo a suína, e fazem um prato chamado goulash. Com o frio que faz lá, eles servem esse prato quente, tipo um sopão com uns pedaços de carne e com arroz. E eu vi eles fazerem com carne suína.

Qual é o consumo per capita de carne suína no Brasil?

Está em 15 quilos por habitante/ano. No mundo é a mais consumida, em torno de 17 a 20 quilos, porque há vários países que comem muita carne suína e temos outros que não comem nada. Os campeões são os asiáticos que não são muçulmanos – Japão, Coreia do Sul e China –, além da Rússia, que chega a 30 e poucos quilos.

E a pergunta que se faz há mais de dez anos: por que o Brasil não acompanha esse desempenho?

Além de ser uma questão cultural, temos de ver também no Brasil que o suíno e o bovino subiram de consumo, a ave subiu barbaramente de consumo, e não houve perda em nenhuma das três carnes. O peixe continua com seus 8, 9 kg; o suíno que era 8 foi para 14; a ave que era 20 e poucos foi para 45; o bovino que era 20 e poucos está em 30, 35, dependendo do estado. Logo, a maior análise que se pode fazer é que no Brasil as pessoas começaram a ter acesso à proteína. E aqui se oferece a proteína animal de menor preço, que é a ave. E se você for comparar, as outras carnes também são proteínas de menor preço em relação a preços exercidos lá fora. Obviamente, houve uma reação bastante grande no país quando se domou a inflação e se melhorou o poder aquisitivo de parte da população. Não houve troca de uma carne por outra, só houve ganhos.

Temos um mercado interno muito forte, tanto que boa parte das empresas nacionais vive de mercado interno. É óbvio que o Brasil precisa exportar por causa de defasagens cambiais; quanto mais dinheiro externo que entra aqui que tem maior valor economicamente em relação à nossa moeda, melhor para nós, em termos de país, de economia, de investimento; a exportação tem de existir. Agora, temos um mercado de consumo muito forte, com 200 milhões de habitantes. Vamos dizer que 30% não tem condições financeiras de comprar algo; o resto tem. Por que a China joga um monte de produto para nós? Por que os Estados Unidos sonham em exportar para nós diversos tipos de coisas? E melhorou mais ainda nestes últimos anos porque houve algumas mudanças econômicas importantes no país e que determinaram a criação de uma classe média mais forte, além de uma classe pobre que saiu da pobreza absoluta e passou para uma condição de poder comprar alguma coisa.

Após as análises de exportação e consumo per capita, como anda a produção de carne suína no país?

A produção tem subido em torno de 5% a 6% ao ano, mas este ano de 2013 teremos uma produção mais ajustada à demanda, em decorrência dos aumentos de insumos, em determinados momentos, com falta de milho em alguns estados em 2012, o que influiu nos abates deste ano; também tivemos aumento de mortalidade de leitões, problemas de reprodução ocorridos no verão e no inverno (altas e baixas temperaturas), e com isto estamos abatendo animais mais leves – redução no peso médio das carcaças, na produtividade e, consequentemente, na oferta de suínos para abate. Tudo isso somado ocasiona um menor volume de carne ofertado. Agora, no fim de dezembro, vamos começar a alojar animais para abater até julho de 2014. O que já está programado para abater até junho, está dentro de um preço de insumo adequado, dentro da normalidade. Mas a tendência para 2014 não é de grande crescimento para a produção. [Neste momento da entrevista, Vargas recebe o apoio de Jurandi Soares Machado, diretor de Mercado Interno da Abipecs, para o fornecimento de mais detalhes na análise] E o que vai limitar o volume de exportação é a capacidade de o mercado interno absorver os preços que estarão colocados; e como haverá uma produção muito ajustada à demanda, os preços estarão altos. E 2014 é um ano de eleições, o que demanda mais alimentos, pois há muitas festas, candidatos pagando churrascos, e isto aumenta ainda mais o consumo. Será um ano atípico. E de uma maneira geral será um termômetro para as carnes.

Na Abipecs, temos um trabalho de acompanhar os investimentos dos nossos [22] associados, e não vemos nas empresas sinais de ampliação da produção. As empresas líderes não fizeram investimentos, estão em compasso de espera, em uma fase de reorganização interna. E as demais companhias acabam seguindo a mesma dinânima das grandes. Não tem planta nova sendo construída, não tem granja nova – o que existe é reforma de granja ou mudança no sistema de produção, mas em termos de volume de plantel não há alterações expressivas. Os grandes projetos que já estavam em andamento vão continuar, mas em volta disto não está acontecendo nada de novo, e na projeção que temos para 2014 já está inclusa a ampliação dessas empresas. Já outras empresas encolheram. Tudo isso dentro de uma lógica de que se vai produzir o que se vender, pois ninguém quer ficar com estoque.

Para encerrar, qual é o diferencial da carne suína brasileira?

O diferencial da nossa carne eu diria que está dentro de um sistema integrado de produção, que nos permite ter controle tanto da inocuidade do produto como nos aspectos de saúde pública que por ventura uma carne pode trazer ao consumidor. Sem contar toda a parte genética que é bem trabalhada, de modo que esses animais apresentam hoje uma carne de alto valor nutritivo, dismistificada de toda e qualquer característica que possa vir no sentido de que a carne suína possa fazer mal, vai dar colesterol, não pode ser consumida por pessoas que tenham cardiopatias. Enfim, temos uma carne de boa qualidade nutricional, revestida de um grande aspecto de qualidade, não só sob o ponto de vista de alimentar a população com níveis proteicos, nutricionais e vitamínicos, mas sem prejuízo também no que diz respeito à ingestão de muita gordura. Porque hoje temos um animal de pouca gordura sendo abatido, por causa da genética que adquirimos e o controle total de tudo que este animal se alimenta e da forma como este animal é levado até a data em que será abatido.

Fonte: CARNETEC

Fonte: PORKWORLD - o mega portal da Suinocultura Brasileira

 

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